quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Multidão Solitária





A sociedade de consumo e a cultura pop alimentam a indústria das celebridades explorando a imagem de mito de cantores, atores, modelos e apresentadores de televisão. Na Índia, país em que o fanatismo pelo cinema é como o do brasileiro pelo futebol, os atores mais famosos, como Shah Rukh Khan, Amitabh Bachchan e Kajol, são venerados como deuses. 

Existem inclusive templos construídos em homenagem a alguns deles. A adoração às celebridades na contemporaneidade pode ser comparada ao fanatismo religioso? Em artigos inéditos, a psicanalista Fani Hisgail e o sociólogo Waldenyr Caldas analisam o fenômeno. 

No início do século 20 e até mesmo um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, a comunicação entre os povos não era tão intensa nem instantânea como em nossos dias. A revolução operada pela tecnologia da informação com o uso dos computadores ainda nem existia como projeto. 

Os chamados mass media, entre eles o próprio rádio, não tinham a força social e política, muito menos o poderoso apelo popular contemporâneo. Mesmo assim, os jornais, o cinema e as revistas, dentro dos seus limites para a época, davam conta do que se passava com a política e os políticos, os artistas, esportistas, escritores e até os acontecimentos policiais. 

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Modelos formatados da cultura




O psicanalista e escritor explica o fetichismo angustiante e aceitado que a indústria cultural gera na condição pós-moderna

Formado em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e Psicologia pelo Instituto de Psicologia da mesma universidade, Tales Ab’Sáber tem ainda os títulos de mestre em Artes e doutor em Psicologia Clínica Contemporânea pela USP. 

Ensaísta interessado na ligação estreita da cultura com a psicanálise, é membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e professor do Curso de Psicopatologia e Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública da USP. 

Em 2005, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro de Psicologia, Psicanálise e Educação com o livro O Sonhar Restaurado – Formas do Sonhar em Bion, Winnicott e Freud (Editora 34, 2005). É autor também de A Imagem Fria (Ateliê Editorial, 2003) e Lulismo: Carisma Pop e Cultura Anticrítica (Hedra, 2011). 

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Interações filosóficas





Durante muitos anos, a filosofia foi considerada, dentro da literatura, um gênero difícil. Os que torciam o nariz para ela alegavam o uso de um linguajar enigmático, ou ideias complexas demais. Nos últimos anos, no entanto, o mercado editorial brasileiro vem tratando o tema com um pouco mais de atenção. Muito devido ao interesse maior dos leitores e, claro, à presença cada vez mais constante, ainda que tímida, de obras de temática filosófica nas listas de livros mais vendidos. Títulos, como é preciso deixar claro, que não são necessariamente de filosofia. Na verdade, eles mais utilizam conceitos para, a partir deles, lidar com temas do nosso cotidiano.

Mas de onde vem esse interesse de certa forma súbito? Três importantes filósofos contemporâneos – o suíço Alain de Botton, o francês André Comte-Sponville e o canadense Lou Marinoff – concordam que um dos principais motivos é o fato de as religiões não mais conseguirem dar respostas para as angústias do ser humano moderno.


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100 X Nelson Rodrigues





No cenário cultural brasileiro da segunda metade do século passado, brilhou o grupo de mineiros radicados no Rio de Janeiro conhecidos como “Cavaleiros de um íntimo apocalipse”: Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Talvez mais um pudesse ser incluído, se mineiro fosse, pela amizade que o ligava a todos. O quinto cavaleiro seria Nelson Rodrigues, que completa 100 anos de nascimento em 23 de agosto próximo. Artista e jornalista – falecido em dezembro de 1980 –, ele faria jus ao nome do grupo por um sentido específico: o de ter mapeado com profundidade uma série de aspectos da cultura brasileira e do limite do humano, demasiadamente humano.

Fartamente clicado, uma imagem que melhor o revela é a fotomontagem da capa da primeira edição de Memórias – A menina sem estrela (1967). Nelson vira vários Nelsons, plural como suas atividades em torno da palavra: repórter, dramaturgo, romancista, cronista e memorialista. Em todos, caminhou sobre o fio da navalha da condição humana, por vezes questionando acidamente o leitor ou o espectador. A Revista da Cultura ouviu amigos e pesquisadores para levantar aspectos de sua vasta obra. Mas é muito difícil não chegar perto da palavra “gênio”, apesar de ainda ter muito a se descobrir sobre ele.

Ele pelos outros
Mas quem era, afinal, Nelson Rodrigues? Para o escritor, jornalista e último “personagem” de suas crônicas, Carlos Heitor Cony, foi talvez a figura mais importante tanto no jornalismo como no teatro brasileiros, além de um amigo muito querido. Tinha raro talento: o dom da “palavra certa ou justa” para sintetizar bem o que queria dizer. E o que mais se aproximou da poesia, tanto que Manuel Bandeira o definia como “o maior prosador dramático da cultura nacional”. Um exemplo de lirismo na dramaturgia, Cony lembra a fala repentina do texto de Valsa nº 6 (esgotado): “E quando chove em cima das igrejas, os anjos escorrem pelas paredes”. Para ele, tal imagem desconcerta o espectador e é difícil acompanhar a encenação.

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